
Por toda a parte à direita, existe uma certa perplexidade. Intelectuais debruçam-se sobre a vida, não sem uma ponta de saudosismo em relação ao passado e desprezo pela aparente despolitização da cidadania. O domínio do marketing e a certas influências são apontados como sinais de que a democracia portuguesa está em vésperas de naufragar.
Há mesmo quem exiba a sua saudade dum tempo em que ainda era possível controlar o protgonismo das multidões para negociar, por alto, uma solução política. Foi assim no movimentos dos «Direitos Já!», em que a vozearia das ruas foi instrumentalizada para se buscar a democracia de bastidores.
“Democracia Portuguesa”, obviamente sem notar a ironia contida na escolha da fotografia. Se se tivesse escolhido uma imagem de greve dos metalúrgicos, não seria normal, embora a greve tenha sido o golpe que de facto estremeceu com o antigo regime.
Hoje, pretende-se culpar toda a esquerda de tudo o que há de errado na política portuguesa.
Até se esquecem que a despolitização é herança da cidadania negada, e está explícita não só nos candidatos bizarros, mas também em partidos que não resistem à selecção interna para a escolha dum candidato a presidente. Dedo esticado, como se sabe e vê, é um mal apenas quando praticado por alguém criticável, nunca quando se aponta em hoteis da capital. Politização exige compromisso. A amnésia de alguns estende-se à campanha movida contra as ténues tentativas do governo promover a cidadania política, através de conferências e dum plano nacional dos direitos do homem.
Gasta-se muita tinta para nada, mas gasta-se também muita saliva com o mesmo resultado.
Existe um vazio de ideias, porque a apatia e a ausência de reflexão tomaram conta de tudo e de todos. Inventam-se as crises. E o poeta prega “mudar radicalmente o sistema de representação”. Será que sonha, como só sabem sonhar os poetas, no voto censitário? Outros, do lado, falam de discurso autoritário que dá ênfase à ascensão social. (puseram-se não sei quantos portugueses na classe média…) Outros falam da nossa apatia, sustentada pela classe média pagadora, que se preocupa com problemas como a liberdade de expressão, transparência de Estado e corrupção.
Curiosamente, as pílulas que querem fazer-nos engolir, revelam mais sobre alguns entrevistados do que sobre a população portuguesa, os eleitores e a conjuntura económica de Portugal. Revelam desconhecimento, preguiça intelectual e falta de reflexão que, eles, os entrevistados, preferem atribuir – como sempre – aos outros.
Infelizmente pouca gente se tem dedicado a estudar a erupção da política de milhões de portugueses, como resultado da ascensão social que viveram nos últimos anos. O fenómeno deveria ser alvo de estudo sério. Do ponto de vista ciência política, a miséria é bem grande.
Além da ignorância, no entanto, torcer o nariz à actual campanha de desacreditação das políticas de esquerda, é um objectivo político; desqualificar antecipadamente os eleitos pelo povo. Para além do golpismo, todavia, está a perplexidade da classe e, a que se localiza na esquina onde se encontram os tais intelectuais de direita. Portugal é um país de extrema concentração de poder, de riqueza e de saber. E o fenómeno que vai influenciar as próximas eleições presidenciais e as legislativas a longo prazo, representa uma ameaça a esta sociedade, em que as ideias políticas, de comportamento e consumo, vertem dos ungidos em direcção às massas. Assistimos, em câmara lenta, a uma revolução nos papeis sociais, que se vai acelerar quando a ascensão económica se combinar com ainteriorização de conhecimento. Perplexos, os que se acreditam manutentores da nossa ordem hierárquica, confundem a sua irrelevância com a definitiva decadência da democracia portuguesa, o que é uma forma elegante de dizer que sentem desprezo pelos pobres.
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