
«Uma das quatro esquinas formadas pelas ruas do “Olhador” e do “Ouvidor”, (ali mesmo onde estava a Viela da “Quitanda”), que se cortavam mutuamente, chamava-se nesse tempo “O Canto dos Meirinhos”; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe, que gozava então de não pouca consideração».
Os meirinhos de hoje não são mais que caricata sombra dos do tempo do rei. Esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o reino, no tempo em que a demanda era, entre nós, um elemento de vida; o extremo oposto eram os desembargadores.
Ora, como os extremos se tocam, tocando-se fecham o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, prováveis razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamavam o processo. Daí a sua influência moral.
Mas, tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava das suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrivão de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desses tempos não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos e típicos; nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, os seus olhares calculados e sagazes significavam chicana.
Trajavam sisuda casaca preta, calças e meias da mesma cor, sapatos afivelados, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na sua ilharga direita penduravam um círculo branco, cujo significado ignoro, e coroavam tudo isto com um grage chapéu armado.
Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava da sua posição. Era temível quando, ao virar uma esquina ou ao sair de casa pela manhã, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse, não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível “dou-me por citado”. Ninguém sabe que significado, fatal e cruel destas poucas palavras! Eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem num sector de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juíz, inexoráveis Charontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não uma esmola, mas todo o conteúdo dos seus bolsos, até à última parcela da sua paciência.
Hoje tudo é diferente. Ninguém se dá como citado, faltam às audiências, andam de recurso em recurso, uma forma de jogo à custa do dinheiro que possuem e de advogados que ficam a dever muito à moral.
É evidente que me refiro a essas “gordas” personagens armadas em fidalgos nas notícias da república e nas astúcias legais. Por tal e outros motivos entoam a modinha: “Quando estava na minha terra/acompanhado ou sozinho/ cantava de noite e de dia/ao pé dum copo de vinho! E riem-se como alarves…
Os meirinhos de hoje não são mais que caricata sombra dos do tempo do rei. Esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o reino, no tempo em que a demanda era, entre nós, um elemento de vida; o extremo oposto eram os desembargadores.
Ora, como os extremos se tocam, tocando-se fecham o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, prováveis razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamavam o processo. Daí a sua influência moral.
Mas, tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava das suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrivão de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desses tempos não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos e típicos; nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, os seus olhares calculados e sagazes significavam chicana.
Trajavam sisuda casaca preta, calças e meias da mesma cor, sapatos afivelados, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na sua ilharga direita penduravam um círculo branco, cujo significado ignoro, e coroavam tudo isto com um grage chapéu armado.
Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava da sua posição. Era temível quando, ao virar uma esquina ou ao sair de casa pela manhã, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse, não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível “dou-me por citado”. Ninguém sabe que significado, fatal e cruel destas poucas palavras! Eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem num sector de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juíz, inexoráveis Charontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não uma esmola, mas todo o conteúdo dos seus bolsos, até à última parcela da sua paciência.
Hoje tudo é diferente. Ninguém se dá como citado, faltam às audiências, andam de recurso em recurso, uma forma de jogo à custa do dinheiro que possuem e de advogados que ficam a dever muito à moral.
É evidente que me refiro a essas “gordas” personagens armadas em fidalgos nas notícias da república e nas astúcias legais. Por tal e outros motivos entoam a modinha: “Quando estava na minha terra/acompanhado ou sozinho/ cantava de noite e de dia/ao pé dum copo de vinho! E riem-se como alarves…
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